domingo, 12 de setembro de 2010

0208_gueixas_dupla02.jpg
A maiko Fukuyuki (à esquerda), 18 anos, diz que os pais ainda não entendem sua decisão de ser gueixa e Kimisome (à direita), 21 anos, brigou com a família quando decidiu se mudar para oki-ya e hoje os contatos se resumem ao estritamente necessário
O rigor não restrito apenas a educação. A programação de atividades é igualmente limitada. As maikos tem uma agenda tão cheia que sobram apenas dois dias de folga por mês. E muitas nem podem dispor desse dias para voltar para casa e descansar no colo da verdadeira mamãe, já que a decisão de ser gueixa, em geral, é acompanhada de um rompimento com a família. Ageiko Kimisome brigou com os pais quando decidiu se mudar para oki-ya e hoje só conversa com eles o estritamente necessário . A maiko Fukuyuki também teve problemas em casa. Meus pais ficaram surpresos e desaprovaram minha idéia de ser gueixa”, conta . “Eles esperavam que eu tivesse uma vida comum, mas compreendem melhor minha decisão”.
0208_gueixas_preco_fama.jpgHoje em dia não é mais preciso ser virgemA vida comum para Fukuyuki se resume às folgas semanais. Nesses dias, ela troca o quimono de seda por jeans e camiseta e deixa extravasar seu lado adolescente, tão reprimido no mundo gueixa. “Me visto de modo tão normal que até mesmo as pessoas do oki-ya não me reconhecem”, diverte-se. Ela usa o tempo livre como qualquer garota da sua idade. Adora fazer compras e ir ao parque de diversões. “Minhas folgas são valiosas, tenho horas contadas. O fato de ir a uma lanchonete é uma aventura, porque é uma coisa que dificilmente faço”, contenta-se. “É uma emoção diferente que não posso renunciar’.
Se ir ao McDonald’s fosse a única renúncia no cotidiano de Fukuyuki, a vida de gueixa não seria tão difícil. Além de ter de renunciar ao convívio familiar, se quiser continuar queixa até o final de sua vida ela ela deverá riscar a palavra casamento de seu vocabúlario. Mas isso não impede que o coração de uma garota de 18 anos balance de vez em quando. “Atendo grupos com homens jovens, alguns atraentes, mas não há chance de acontecer nada, pois a fiscalização da okasan e das irmãs durante as festa é muito intensa”, revela. E se ela gostar de algum desse belos jovens? “O sentimento é livre, mas não pode ser concretizado com se estivéssemos no mundo exterior”, resigna-se Fukuyuki, que ainda não se decidiu até quando permanecerá com gueixa. “Acho que se encontrar alguém ideal abandono a carreira”.
0208_gueixas_aulas_musica.jpgPaixões fulminantes, aliás, estão entre os grandes tremores das proprietárias das casas de gueixas. O que faz sentido quando se lembra que as “mamães” são, na realidade, gerentes de uma família que significa negócios. O investimento para se formar uma gueixa é muito alto. Por isso, só compensará se as meninas ficarem um bom tempo trabalhando e dando lucros para a casa. O que justifica a fiscalização, e o controle sobre cada passo das jovens maikos, ainda fascinadas com o primeiro quimono.
Outra exigência é que a futura gueixa tenha concluído o primeiro grau na escola. Até o início deste século, a principal obrigatoriedade era que fosse virgem. Diga-se de passagem, uma tarefa não tão difícil de ser cumprida, pois a época tradicional para se começar o treinamento era quando a garota completava seis anos, seis meses e seis dias de idade.
0208_gueixas_aulas_danca.jpgA numerologia é até interessante, mas o sistema não. Além de não terem idade para decidir seu rumo por si própria, as crianças eram muitas vezes vendidas pelos pais aos oki-yas. Era uma maneira de tentar sobreviver aos difícies períodos das Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Outra atrocidade do passado era que a primeira experiência sexual para um cliente especial ao preço médio de dez mil dólares. “Isso não existe mais”, esclarece Michiyo Oishi. “Não me importo se as garotas são virgens ou não, para falar a verdade, nem pergunto”.
O preço da fama
Doze quimonos informais, ao preço de um milhão de ienes (cerca de 8,7 mil dólares) cada fazem parte do guarda-roupa de uma gueixa. Além disso, ela precisa de dois modelos formais, valor incalculável. A roupa é um dos artifícios para manter as gueixa atreladas aos oki-yas.
Aulas de música e dança estão entre as principais obrigações de uma aprendiz de gueixa. Treinos estafantes que seguem pela vida toda. Os “mestres” avisam que há sempre algo a aprimorar na arte das geikos
0208_gueixas_grupo.jpg
Dificilmente elas conseguem comprar seu próprio “enxoval”
Quase uma gueixa
No último feriado de Ano-Novo, nove jovens japonesas causaram furor ao desfilar nas proximidades do templo de Asakusa, um dos principais pontos turísticos de Tokyo.
Enfiadas em elegantes quimonos de seda e com os rostos maquiados de branco, elas confundiram a multidão, que julgava estar diante de gueixas de verdade. Era quase isso. O furisode (que também significa quimono de manga comprida) é grupo de “gueixas modernas” que surgiu há cinco anos. São garotas treinadas para entreter clientes de restaurantes e lojas da região. Elas não tocam instrumentos e nem cantam a kouta, tradicionalmente música das gueixas, mas se saem bem ao executar a dança japonesa ao som de fitas gravadas.
0208_gueixas_sentada.jpgA maiko Satohina, 18 anos: duro aprendizado antes ser promovida à gueixaO grupo, criado pela Corporação de Furisode de Asakusa, emprega garotas de 18 a 25 anos, preparadas durante três meses antes de estrear com gueixas modernas. Elas recebem lições de etiqueta, dança e aprendem a vestir-se com o quimono e a pintar-se com shironuri, a maquiagem branca das gueixas. As furisode já viraram atração em Asakusa, principalmente porque cobram muito menos por um show do que as gueixas com selo de autencidade. “É uma forma de agradar aos nosso clientes com uma atmosfera tradicional, valorizando a cultura japonesa”, diz Hideo Ida, diretor da Federação de Lojistas de Asakusa. O trabalho como furisode também atrai garotas porque é como um emprego normal, com duas folgas semanais, ao contrário das gueixas de verdade, que só param dois dias por mês e têm de morar no oki-ya. “Admiro as gueixas”, diz a furisode Rino Koga, 19 anos. “As vezes até brinco de imitá-las tentando tocar os instrumentos de percussão”.
Discrição é a essência dessa família de artistas das ocha-yas (casas de chá) que se espalharam pelos segredos que encerram. Portanto, é perda de tempo perguntar à maiko Fukuyuki, ou qualquer outra de suas “irmãs”, quais foram as pessoas famosas que já estiveram a seu lado durante as festas que costumam participar. No Japão, todo mundo sabe também que o papel de confidentes é encenado com freqüencia pelas gueixas – que ouvem coisas que até Deus duvida.
O mundo das gueixas é um dos mais comentados e curiosamente, um dos menos conhecidos do mundo. Por toda parte já se ouviu falar sobre o assunto. Mas ninguém sabe exatamente o que fazem essas mulheres. Lindas e anônimas, com rosto coberto pela espessa maquiagem branca, elas estão entre os símbolos mais marcantes do Japão. De reputação duvidosa, muitos ainda teimam em classificá-las como garotas de programa. Enigmáticas, são donas de um estilo de vida que já inspirou livros. O mais badalado deles, Memórias de uma Gueixa, do escritor americano Arthur Golden, está prestes a virar filme pelas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg. Toda a fama desse universo se deve exatamente ao fato das gueixas serem inacessíveis para a maioria dos mortais. É um universo tão exclusivo que a maior parte dos japoneses nunca teve nem terá a oportunidade de conferir de perto. O privilégio é exclusivo de ricos empresários, políticos poderosos e renomados artistas. E só. Ninguém mais entra nesse restrito clube. Nem mesmo o dinheiro pode comprar o acesso. Se não a apresentação de alguém que já faça parte deste mundo, é impossível chegar até ele. Depois de vários meses de contatos, Made in Japan conseguiu permissão para entrevistar essas divindades do Japão. E, pela primeira vez na imprensa brasileira, desvenda o que acontece dentro das exclusivas casas de chá japonesas.
0208_gueixas_leque02.jpgUma noite pode sair por até 5 mil dólaresO universo das gueixas, mulheres-artistas que se dedicam a agradar aos homens por meio da dança, da música e da pura adulação é um território a parte do Japão. É um mundo de sonhos, permeado de romance, luxo e exclusividade. Para conhecer seus mistérios, poucos são os selecionados. Para manter o fascínio da arte, raras são as escolhidas.
Ser gueixa não é uma simples opção. Para se tornar mestras de entretenimento masculino, as maikos (aprendizes) precisam muito mais do que dotes artísticos e um rosto sem espinhas. Afinal, elas são treinadas para amansar os egos dos homens mais poderosos do Japão, sejam eles políticos graduados, abastados empresários ou temidos yakuzas (mafiosos). Todos milionários que não se importam em torrar fortunas, para serem inebriados sem suas próprias fantasias. Por outro lado, dinheiro não é passaporte garantido para o aparentemente inacessível universo das gueixas. O que significa que uma conta bancária polpuda não basta para ser bem-vindo nas luxuosas casas de chá em que as gueixas entretêm seus clientes em Kyoto, Tokyo e e outras poucas cidades japonesas. A chave de entrada é ser amigo de alguém com trânsito livre nessa sociedade privada. “E um universo de apresentações”, explica Michiyo Oishi, dona da casa de chá Hori Yae, em Miyagawacho, um dos cinco distritos de gueixas de Kyoto – onde a tradição surgiu no século XVII. “Até um estrangeiro pode entrar, desde que seja apresentado por um de nossos clientes”.
0208_gueixas_cena_01.jpg
Cenas do cotidiano em Miyagawacho, badalado bairro de gueixas em Kyoto
Para chegar ao estágio de geiko (gueixa), as aprendizes acumulam anos preparação. São adolescentes que trocam a rotineira vida de família e escola para viver a paixão pela arte. “Quando tinha 15 anos, vi numa revista feminina uma reportagem sobre Kyoto, fiquei encantada com as gueixas e decidi que aquela seria a minha vida”, revela a maiko Fukuyuki, hoje com 18 anos e há três anos morando em Miyagawacho.
A vida de maikos com Fukuyuki está longe de ser rotineira, mas não deixa de ser espartana. Como já acompanham as gueixas nas festas de casas de chá (ocha-ya), têm a oportunidade, ainda muito jovens, de conhecer alguns dos homens mais influentes da política, das artes e dos negócios do Japão e do mundo. Para não decepcionar os anfitriões, aprendem desde cedo a dominar não só as peculiaridades do serviço a que se propõem, mas as próprias emoções. “É uma profissão atraente porque aqui fico ombro a ombro com pessoas importantíssimas”, exulta-se a maiko.
0208_gueixas_cena_02.jpg
A noite embadalada pelo hipnotizante balé as conversas bem-humoradas para entreter os clientes
O serviço proporcionado pelas gueixas, ainda que perfeito, é muito simples se equiparado à pompa e ao mistério que envolve sua rotina. Elas são encarregadas de servir as bebidas e descontrair os clientes durante as festa. Encaminham as conversas para tema amenos, contando piadas e fazendo os homens se sentirem donos de um reino cujos limites são o tatami e as paredes. Carismáticas e sedutoras, elas sabem com trazer os clientes para seu mundo de fantasia. E um dos segredos é nunca contrariá-los.
Questões “fúteis” como dinheiro, por exemplo, jamais são abordadas durante as estadas no ocha-ya. Assim, um cliente jamais avistará uma conta em mesa após qualquer festa. A fatura lhe será enviada pelo corrreio uma semana seguinte. Um truque que faz os homens apagarem da memória qualquer tipo de preocupação enquanto apreciam o show das geikos – mesmo que soe estranho alguém com cacife para bancar uma festa de gueixas se enquadra no rol das pessoas com “problemas”, pelo menos financeiro. Dependendo do número de gueixas em uma festa (a média é uma para cada dois clientes) e do montante de uísque e saquê consumidos, o banquete no ocha-ya custa entre 2 mil e 5 mil doláres por cabeça. O valor é pago por um determinado anfitrião, que pode ser um ator de kabuki agradando amigos ou empresários bajulando pessoas que lhe interessem nos negócios.
0208_gueixas_cena_03.jpg
De volta ao dia-a-dia de tarefas domésticas e estudos no oki-ya
Até tarefas simples, como servir saquê, são executadas pelas gueixas com movimentos encantadores. Atitudes derivadas de um exaustivo treinamento que inclui também o aprendizado das regras de etiqueta da cerimômia do chá, o requintado ritual japonês para se tornar chá verde. A música é outra especialidade das moças, que sabem tocar pelo menos um ou dois instrumentos característicos da música de gueixas, chamada de kouta.
Muitas se arriscam ainda a cantar. Para conseguir atuar em tantas artes diferentes, contam coma experiência de mestres como Inoue Yachiyo, 92 anos, que ainda ensina dança para as gueixas em Kyoto e é considerada Tesouro Nacional do Japão – principal comenda do governo para homenagear as pessoas de destaque no país.
Com tantos atrativos, são comuns casos de homens que extrapolam os limites na ocha-yas. Mas nem quando eles se sentem poderosos a ponto de achar que podem se engraçar mais intimamente com as gueixas, elas ousam ser rudes. Hábeis, impõem seus limites sem ser desagradáveis. E, ao menor sinal de saia justa, não hesitam em exibir atributos extras, dançando trechos de um balé fantástico e compenetrado. A recompensa vem quando elas sentem os clientes hipnotizados pelos movimentos delicados, mas regidos por um intimidador olhar vazio, como se tudo mais fosse apenas peça decorativa no ritmo inebriante de seu espetáculo.
Algumas casa de chá, como a Hori Yae, em Kyoto, mantém suas próprias gueixas. Outras solicitam os serviços das geikos de um oki-ya. É para lugares com esse que adolescentes se dirigem quando decidem trocar os lares para realizar um sonho de se tornar gueixas. O processo de admissão de novas garotas funcionam por apresentação. Semanalmente, Michiyo Oishi, dona da ocha-ya Hori Yae, em Kyoto, recebe currículos de candidatas indicadas por amigos e clientes. Elas são avaliadas, principalmente, pela beleza, e charme. “Tem de ser bonita e não pode ser gorda”, revela Oishi.
Caso seja aceita na comunidade gueixa, a aprendiz (chamada de maiko) terá de “trocar de família’. A okasan (dona da casa de gueixa) será sua nova mãe e as outras gueixas sua irmãs. Uma geiko será sua irmã de modo especial. Chamada de “irmã mais velha”, ela é a principal responsável pela formação da nova gueixa, num processo baseado na observação. O ensinamento não é gratuito. A maiko passará a acompanhar a irmã mais velha diariamente, funcionando como sua auxiliar no dia-a-dia. Fase que dura cerca de um ano, o último antes de ela se tornar gueixa. Antes de ser entregue a tutela da irmã mais velha, porém, a aprendiz passa de 3 a 5 anos recebendo lições de “etiqueta gueixa” de sua okasan. Mas a “mamãe” não é boazinha 24 horas por dia. As maikos são treinadas com rigidez e recebem uma boa carga de afazeres domésticos dentro do oki-ya. Já houve o caso de uma iniciante que abandonou o aprendizado e processou o oki-ya por exploração no trabalho. “É um mundo ultra-rigoroso”, admite a geiko Kimisome.
Em nome da profissão, as gueixas abdicam até de seus nomes. Quando passam a integrar oficialmente o oki-ya, elas ganham apelidos. O sobrenome? Gueixa, que em japonês significa pessoa que vive da arte. Namorados entram na lista de concessões feitas pelo oki-ya à gueixa. Ou seja, ela tem o direito de namorar, mas desde que isso seja feito em suas poucas horas de folgas. O “eleito” também não pode pode ser estar incluído em sua lista de clientes e é proibido de pisar no oki-ya, onde a gueixa também jamais poderá atender a um telefonema sequer seu. Casar com o heróico pretendente também está fora de cogitação, sob pena de a gueixa Ter de enterrar definitivamente sua carreira.
Gueixas não podem se casar, mas podem ter filhos, que serão muito bem recebidos e criados dentro da comunidade. Se o bebê de uma gueixa for do sexo feminino, ótimo, é candidata em potencial a ser uma geiko no futuro. Caso seja homem, estará fadado a ser um papel secundário dentro do oki-ya, com motorista, por exemplo. Afinal, estamos falando de uma família na qual as mulheres dão as cartas.
Sensualidade e exotismo são conceitos parceiros há muito tempo. No Oriente, são sintetizados pela figura das gueixas, japonesas que estudam a tradição milenar da arte da sedução, dança e canto. No mundo todo, elas despertam atração com sua delicadeza e se transformam, muitas vezes, em fantasia sexual entre homens e mulheres.

Mas vida de gueixa, no equilibrado Japão do século XXI, não é nada fácil. Disciplina e obediência a uma forte hierarquia social estabelecida dentro de suas próprias comunidades exigem delas dedicação integral e, sobretudo, vocação.

Um pouco de história

No começo do chamado Renascimento Japonês, quando as diferentes províncias que compunham o país foram unificadas, criou-se um ambiente de refinamento cultural em que artes como o Ikebana e a Cerimônia do Chá se consolidaram e o entretenimento se sofisticou. Foi nesse contexto que surgiram as gueixas, a princípio um termo que se referia aos homens artistas.

Segundo a enciclopédia japonesa Kondasha, os primeiros registros da palavra datam por volta de 1750. Nessa época, a atividade de boa parte das gueixas esteve circunscrita aos yoshiwara, chamados "quarteirões do prazer", locais onde também prostitutas e cortesãs exerciam suas atividades, com a permissão do governo.

Vem daí o confuso envolvimento dessas mulheres com a sexualidade e a prostituição. Nesse tempo, as gueixas eram claramente orientadas por leis a não oferecer esse tipo de serviço. "Mas como essas leis eram renovadas com uma certa constância, isso é um sinal de que deviam ser freqüentemente desobedecidas", acrescenta o professor e pesquisador Lao Kawashima, ex-diretor da Aliança Cultural Brasil Japão. Ele conta que ainda hoje as gueixas são sensíveis ao assunto. "Tanto a prostituição quanto a atividade das gueixas eram consideradas legais no Japão até a década de 50, quando o meretrício foi proibido e passou para a marginalidade. Ou seja, pelo mero aspecto técnico, são coisas bastante diferentes. Mas na prática, nem sempre é tão simples", pondera ele.


“ O perfil do danna é comumente o de um homem casado que busca na gueixa uma amante”


Outro fator a confundir os conceitos é a figura do danna, o necessário "patrocinador" das gueixas. Os custos do treinamento e todo o aparato necessário, como instrumentos e vestimentas, são muito altos e isso fez surgir essa espécie de cliente especial, que financia a vida da gueixa e com quem ela, em muitos casos, mantém uma relação íntima e duradoura. O perfil do danna é comumente o de um homem casado que busca na gueixa uma amante
Gueixa (em japonês: 芸者 geisha?) ou Gueigi (em japonês: 芸妓 geigi?) são mulheres japonesas que estudam a tradição milenar da arte da sedução, dança e canto, e se caracterizam distintamente pelos trajes e maquiagem tradicionais. Contrariamente à opinião popular, as gueixas não são um simples equivalente oriental da prostituta. Elas não trabalham com sexo. Podem chegar a flertar, mas seus clientes sabem que não irá passar disso, e esse é o fato que muitos homens se encantam com a cultura de uma gueixa. No Japão a condição de Gueixa é cultural, simbólica repleta de status, delicadeza e tradição. São em muitos aspectos similares às Kisaeng coreanas. O termo geiko (芸子) é também usado no dialecto de Quioto para descrever as gueixas, especialmente no bairro Hanamachi. Ao contrário do que se verificava nos séculos XVIII e XIX, as gueixas são atualmente em número bastante mais reduzido. Maiko (em japonês: 舞妓?) é o termo utilizado para designar uma gueixa aprendiz. O elegante, mundo de alta cultura de que a gueixa faz parte é chamado karyūkai (柳界 "a flor e mundo de salgueiro"). Uma gueixa famosa, Mineko Iwasaki, disse que isso é porque "gueixa é como uma flor, bela em seu próprio estilo, e como um salgueiro, graciosa, flexível, e forte." Outra importante gueixa foi Kiharu Nakamura

Sobre o nome

Uma maiko andando perto de seu trabalho em Gion Kobu, Quioto.
"Gueixa" (AFI[/ˈgeɪ ʃa/]) é um nome próprio e, como todos os nomes japoneses, não tem variantes no número gramatical. A palavra original consiste em dois kanji, (gei), que significa "arte" e (sha), que significa "pessoa" ou "praticante". Assim, a gueixa é a pessoa que faz arte. A tradução literal de geixa para a língua portuguesa será "artista" ou mesmo "entertainer".
O termo geiko é também usado na região Kansai para distinguir gueixas tradicionais e onsen gueixa (ver abaixo), que são prostitutas que se vestem de forma similar, à excepção do Obi que, no caso das primeiras, é trajado nas costas, enquanto que nestas é trajado à frente — ressalva-se que o Obi é uma parte da indumentária de uma gueixa difícil de vestir, pelo que o facto de ter que ser retirado sistematicamente para a prática promíscua é uma razão para ser vestido desta forma. Pelo mesmo motivo, as verdadeiras gueixas dispunham de ajuda profissional (de um vestidor) para serem assistidas no difícil processo de se vestirem. O traje é composto por várias camadas de quimono e roupa interior, enquanto que o Obi é mais do que um simples cinturão de tecido. Com efeito, uma gueixa poderá demorar-se a vestir mais de uma hora, mesmo com ajuda. Na China a palavra gueixa é traduzida como "yi ji", que soa como "ji" e tem relação com a prostituição.
As gueixas aprendizes são designadas maiko, que é construída a partir dos kanji (mai), que significa "dançarino/a" e (ko), que significa "criança". Curiosamente, foram as maiko que, com a sua maquiagem branca, quimonos elaborados e penteado característico — em forma de pêssego — se tornaram no estereótipo das gueixas para os ocidentais.
As gueixas de Tóquio não seguem, contudo, o processo ritualizado de aprendizagem maiko característico de Quioto. O período de treino pode ir de seis meses a um ano — substancialmente inferior ao da maiko de Quioto — até ao seu debute como uma gueixa completa. A aprendiza é referida como han'gyoku (半玉) ou "meia-jóia", ou pelo termo mais genérico o-shaku (御酌), literalmente, "aquela que verte (álcool)". Em média, as gueixas de Tóquio são mais velhas que as homónimas de Quioto, muitas delas chegando a dispor de algum grau académico.

História

Gueixa tocando shamisen, ukiyo-e pintura feita pelo artista Kitagawa Utamaro, 1800.
A gueixa é mais moderna do que muitas pessoas pensam. Houve algumas mulheres que trabalharam como artistas antes de que a gueixa aparecesse, desde o Período Heian (794–1185); mas as gueixas verdadeiras pareceram muito depois. Em 1589, Hideyoshi Toyotomi autorizou a construção de um edifício na vizinhança de Quioto, fechado do exterior com paredes. Foi chamado Shimabara, e foi dedicado ao prazer. Isto incluiu artes de desfrute, bebida, e prostituição luxuosa. As cortesãs (chamadas oiran 花魁) trabalhavam como prostitutas caras, e atraíram clientes ricos. Muitos artistas também trabalhavam nas mesmas casas, entretendo os clientes com música, danças e poesia. Durante um longo tempo, esses artistas foram homens, e eles chamaram-se "gueixa" (artistas), "hōkan" (gracejadores) ou "taikomochi" (tamborileiros, porque eles tocavam o taiko, um tambor japonês).
Como muitas coisas na cultura japonesa, o mundo de cortesãs ficou muito complicado. Cada homem que desejava estar com uma oiran tinha de seguir rituais difíceis e etiqueta, e só o muito rico e nobre poderia. Por essa razão, muitas casas de chá (ochaya) apareceram fora de Shimabara. Em alguns deles, algumas mulheres praticaram a prostituição mais barata, o "sancha-joro". Contudo outras mulheres, chamadas "odoroki" (meninas dançarinas), atuavam como dançarinas e musicistas. Essas mulheres logo ficaram muito populares. Elas começaram a chamar-se "gueixas", como os artistas masculinos que trabalhavam em Shimabara. Mais ou menos ao ano 1700, as gueixas femininas ficaram muito mais populares do que os masculinos. Alguns anos depois, quase todas as gueixas eram mulheres.
O governo fez leis que proibiam gueixas de trabalhar como prostitutas, e só lhes deram a permissão de atuar como artistas. Uma dessas leis disse que eles tiveram de atar o seu obi (帯 faixa) nas costas, fazendo-o ser mais difícil de tirar do quimono. O seu penteado, a maquilagem e o quimono também tiveram de ser mais simples do que das oirans, porque a sua beleza teve de estar na sua arte, não os seus corpos. Logo, as gueixas ficaram tanto mais populares do que as oirans, que no ano 1750 toda as oirans tinham desaparecido. Outras novas vizinhanças de gueixa (hanamachi) foram criadas em Quioto e outras cidades. Antes do século 19, as gueixas estiveram em melhor posição do que mulheres comuns, mas eles também tiveram problemas na sociedade japonesa. Às vezes, pessoas pobres vendiam suas filhas às casas de chá hanamachi. Alguns homens ricos, chamados danna (patronos) pagavam muito dinheiro para adquirir-se a atenção pessoal de uma gueixa. As gueixas não podiam mais casar-se, portanto elas podiam ter um danna (patrão) para pagar para as suas despesas. Outros homens pagavam muito dinheiro para tomar a virgindade das novas meninas (mizuaje). Mas a reputação e respeito às gueixas cresceu novamente na Restauração Meiji, e até mais depois da Segunda Guerra Mundial. As leis importantes que as protegem foram criadas. As meninas jovens não podem mais serem vendidas às casas de chá, e a virgindade de gueixas jovens não pode ser comprada. Desde então, as mulheres só se tornam gueixas pela sua própria vontade.

Treino

Tradicionalmente, uma gueixa iniciaria o seu treino em tenra idade. Não obstante algumas delas serem vendidas para casas de gueixas (okiya) ainda muito novas, esta não era uma prática comum nos distritos de melhor reputação. Era frequente, porém, que as filhas de gueixas se tornassem gueixas também, como sucessoras (atatori, que significa herdeiro).
O primeiro estágio deste treino designava-se por shikomi. Assim que as moças chegavam à okiyaa, eram colocadas ao serviço doméstico, realizando as tarefas domésticas tal como as criadas. O trabalho era propositadamente difícil para forçar a transformação das moças à nova casa, e à nova vida que se lhe apresentaria pela frente. A shikomi mais nova estaria encarregue de esperar acordada pela gueixa mais velha à noite, enquanto esta não regressasse dos seus compromissos, muitas vezes para além das duas e três da madrugada. Durante este estágio, a shikomi frequentaria as aulas na escola de gueixas da sua zona (hanamachi). Atualmente, este estágio persiste, principalmente para acostumar as moças ao dialecto tradicional, tradições e vestuário dos karyūkai.
Assim que se verificasse a proeficiência artística da aprendiza, e completasse este estágio mediante um difícil exame final de dança, a iniciada passaria ao segundo estágio: minarai. Neste nível, a minarai é dispensada dos deveres domésticos para desenvolver e exercitar o treino anterior, já fora de casa e da escola, seguindo o exemplo de uma gueixa mais experiente — a sua onee-san, ou "irmã mais velha" — cuja ligação simbólica é celebrada através de um ritual. Embora já participem em ozashiki (banquetes em que os convidados se fazem acompanhar de gueixas), não participam a um nível avançado; os seus quimonos, mais elaborados que os das maiko, são concebidos para deslumbrar quanto baste, para compensar. Embora as minarai já possam ser contratadas para festas, tipicamente não são convidadas para as festas em que a sua onee-san participe — são, porém, sempre bem-vindas. Tipicamente, uma minarai cobra 1/3 hanadai, e trabalha em conjunto com uma casa de chá (designada minarai-jaya), aprendendo com a oka-san, i.e., a proprietária. As técnicas desenvolvidas neste estágio não são sequer ensinadas na escola, já que o nível de conversação e brincadeiras só poderá ser desenvolvido através da prática. Este estágio dura, em média, apenas um mês.
Após um breve período, inicia-se o terceiro (e o mais famoso) estágio: maiko. As maiko são aprendizes de gueixa e podem permanecer neste estágio durante vários anos, aprendendo através da sua irmã mais velha e seguindo-as para os seus compromissos. A relação irmão mais velha/irmã mais nova (onee-san/imoto-san) torna-se, assim, de extrema importância, já que a movimentação adequada da maiko em toda a hanamachi irá depender da sua irmã mais velha, que já estabeleceu contactos e relações de amizade. Para além disso, é à onee-san que cabe a transmissão do saber entreter os convidados, como as técnicas de sedução, como servir o chá, tocar shamisen, dançar, manter uma conversa casual, e tudo o necessário para que a maiko se torne conhecida e solicitada para futuros convites a casas de chá e reuniões. A onee-san ajudará a aprendiza a escolher o seu nome profissional, tipicamente através de kanji ou símbolos relacionados com o seu nome.
Ao final de um período suficientemente longo, e dependendo da região — em Tóquio seriam seis meses, enquanto que em Quioto seriam cinco anos — a maiko é promovida a gueixa, passando a cobrar o preço por inteiro. Este é o último estágio e durará até ao final da sua carreira.

Gueixas modernas

Uma geiko entretendo um convidado em Gion (Kyoto)
Gion distrito geiko (hanamachi) de Quioto, Japão.
A gueixa moderna ainda vive nas tradicionais casas chamadas okiya em áreas chamadas hanamachi (花街 "cidades de flor"), particularmente durante a sua aprendizagem. Muitas gueixas experientes que são bastante prósperas decidem viver independentemente. O elegante mundo de alta cultura de que a gueixa faz parte é chamado karyūkai (花柳界 "a flor e mundo de salgueiro"). As mulheres jovens que desejam se tornar gueixas agora muitas vezes começam o seu treinamento depois de concluir o ensino fundamental ou até o ensino médio, com muitas mulheres que começam as suas carreiras na idade adulta. A gueixa ainda estuda instrumentos tradicionais como o shamisen, shakuhachi (flauta de bambu), e tambores, bem como canções tradicionais, dança tradicional japonesa, cerimônia de chá, literatura e poesia. Observando outra gueixa, e com ajuda do proprietário da casa de gueixa, as aprendizes também se tornam habilidosas nas complexas tradições ao redor, selecionando e usando quimono, e na relação com clientes.
Quioto é considerado, por muitos, o lugar onde a tradição de gueixa é a mais forte hoje em dia, inclusive Gion Kobu. A gueixa nesses distritos é conhecida como geiko. O Tóquio hanamachi de Shimbashi, Asakusa e Kagurazaka também é bem conhecido.
No Japão moderno, a gueixa e maiko são agora uma vista rara fora hanamachi. Nos anos 1920 houve mais de 80000 gueixa no Japão, mas hoje há muito menos. O número exato é desconhecido para estrangeiros, mas estima-se que esteja entre 1000 para 2000, maior parte na cidade resort de Atami. O mais comum é ver turistas que pagam uma taxa para se vestirem como uma maiko. Gueixa muitas vezes é contratada para assistir a festas e reuniões, tradicionalmente em casas de chá (茶屋, ochaya) ou em restaurantes japoneses tradicionais (ryōtei). O seu tempo é medido pela queima de um bastão de incenso, chamado senkōdai (線香代, "perfume com incenso a taxa de pau") ou gyokudai (玉代 "taxa de jóia"). Em Quioto os termos "ohana" (お花) e "hanadai" (花代), que significam "taxas de flor", são os preferidos. O cliente toma providências pelo escritório de união da gueixa (検番 kenban), que guarda o horário de cada gueixa e faz as suas designações tanto para entretenimento quanto para o treinamento.

Gueixa e prostituição

Uma oiran se preparando para seu cliente, ukiyo-e desenho de Suzuki Haronubu (1765).
Há algumas confusões, até dentro do Japão, sobre a natureza da profissão de gueixa. A gueixa é freqüentemente representada como prostitutas caras na cultura popular Ocidental. Gueixa são artistas, sendo seu objetivo entreter seus clientes recitando versos, tocando instrumentos musicais com conversas leves. Os compromissos de gueixa podem incluir o flerte com homens e insinuações graciosas; contudo, os clientes sabem que nada mais pode ser esperado. Em um estilo social que é unicamente japonês, os homens são maravilhados pela ilusão de que isso nunca vai acontecer. A gueixa não se ocupa no sexo pago com clientes.
A gueixa às vezes é confundida com as tradicionais cortesãs de alta-classe chamadas de Oiran. Como as gueixa, as oiran usam penteados complicados e maquilagem branca. Um modo simples de distinguir-se entre os dois consiste em que oiran, como prostitutas, atam o seu obi na frente, enquanto a gueixa o faz nas costas na maneira habitual. Durante o período Edo, a prostituição foi legal e as prostitutas como a oiran foram autorizadas pelo governo. Por outro lado, a gueixa foi estritamente proibida de manter uma licença de prostituição, e oficialmente proibida de fazer sexo com seus clientes. O acordo de autorização levou ao termo derrogativo 'registro duplo', referindo-se à gueixa promíscua.
Durante a ocupação do Japão, muitas prostitutas japonesas venderam-se como gueixa a soldados americanos. Essas prostitutas ficaram conhecidas como garotas geesha, devido a uma má pronúncia da palavra gueixa, levaram a imagem de gueixa como prostitutas aos Estados Unidos.
A gueixa que trabalha também em cidades onsen como Atami é chamada como onsen gueixa. Onsen gueixa tem dado uma má reputação devido à prevalência de prostitutas em tais cidades que a divulgam como ‘geisha’, assim como rumores sórdidos de rotinas dançantes como 'Rio Superficial' (que implica as 'bailarinas' levantarem as saias do seu quimono mais alto e mais alto). Em contraste com essas 'gueixas de uma noite', a onsen gueixa é uma verdadeira dançarina e musicista.

Relações pessoais e danna

Espera-se que as gueixa sejam mulheres solteiras; aquelas que decidem casar devem se retirar da profissão.
Foi tradicional no passado de gueixa tomar um danna, ou o patrono. Um danna era tipicamente um homem rico, às vezes casado, que tinha meios de apoiar as despesas muito grandes relacionadas ao treinamento tradicional de uma gueixa e outros custos. Isto às vezes ocorre hoje em dia também, mas muito raramente.
Uma gueixa e o seu danna podem ou não estarem apaixonados, mas a intimidade nunca é tida como uma recompensa do suporte financeiro do danna. As convenções tradicionais e os valores dentro de tal relação são muito intricados e não bem entendidos, até por muitos japoneses.
Enquanto é verdadeiro que uma gueixa não pode ser paga por ter relações pessoais com homens que ela encontra pelo seu trabalho, tais relações são cuidadosamente escolhidas e improvavelmente são casuais. Um hanamachi tende a ser uma comunidade muito unida e a boa reputação de uma gueixa não é tomada facilmente.